O movimento, que tem crescido nos últimos anos, mostra uma mudança significativa nas estruturas familiares do Brasil

Nos últimos anos, tem-se notado um aumento da preferência de casais sem filhos pela compra ou adoção de pets no país.
De acordo com informações da pesquisa Radar Pet de 2023, do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), 21% das casas brasileiras com cachorros já são de casais sem filhos, enquanto 65% são de moradias com cães e filhos. Quando falamos de casas com gatos, 25% pertencem a pares sem filhos.
Isso acontece em um cenário em que a taxa de fecundidade no Brasil cai de 6,16 filhos por mulher, em 1960, para 1,74 (informação divulgada em 2020 pelo IBGE), e o número de pets no país cresceu 65% entre os anos de 2009 e 2019, de acordo com o Instituto Pet Brasil.
Além disso, o perfil do responsável pelo animal de estimação também tem mudado. A pesquisa Radar Pet mostrou que o novo cuidador busca proporcionar cada vez mais qualidade de vida, conforto e bem-estar para seus animais.
Para entender melhor esse cenário, conversamos com Rejane Sbrissa, psicóloga cognitivo-comportamental.
“Temos observado o crescimento das chamadas famílias multiespécie. Cada vez mais pessoas relatam profunda realização emocional ao construir sua vida ao lado de pets, não como substitutos, mas como membros legítimos do grupo”, explica Rejane.
De acordo com ela, do ponto de vista psicológico, o vínculo é real e biologicamente significativo.
“O afeto com os animais não é apenas simbólico, ele é vivido no corpo e no cérebro. Sob a perspectiva da psicologia cognitiva, a convivência com um gato ou cachorro pode atender a várias das necessidades emocionais básicas, como apego seguro e pertencimento, simultaneamente”, pontua.

Estrutura familiar
Quando discutimos o conceito de família, Rejane explica que atualmente ele não se define exclusivamente por laços biológicos, mas por escolha, cuidado, responsabilidade e afeto.
“Estudos associam a convivência com animais à redução de estresse, diminuição de sintomas ansiosos e sensação de propósito. Construir uma família com pets, desde que seja uma escolha consciente e uma relação saudável, é para muitas pessoas uma decisão legítima, afetiva e coerente com seus valores. O que define esse grupo não é apenas a biologia, porém o cuidado contínuo, o compromisso e o amor investido”, diz a psicóloga.
A especialista ainda conta que quando o cuidador alimenta, protege, leva ao veterinário, organiza a rotina e se preocupa com o bem-estar, ele ativa o chamado sistema de cuidado parental, e isso gera sensação de propósito, responsabilidade significativa e importância na vida de outro ser.
Como muitas relações humanas envolvem ambivalência, conflito e julgamento, e os pets oferecem afeto previsível, presença constante e menor complexidade relacional, essa previsibilidade fortalece a sensação de apego seguro.
“Para pessoas com histórico de rejeição ou vínculos inseguros, essa experiência pode ser profundamente reparadora. Ser mãe ou pai de pet também compõe a identidade, não apenas no nível afetivo, porém social, e com participação em comunidades animais. Isso amplia a sensação de construção de projeto de vida”, comenta.
Logo, nem sempre se trata de substituição de filhos. Para algumas pessoas é escolha consciente de modelo de vida, para outras é etapa temporária. Com isso, o termo filho nem sempre significa troca, muitas vezes significa intensidade do cuidado e do amor investido.
Pet visto como filho
Ao discursar sobre diferenças psicológicas entre quem vê o mascote como companheiro de vida e quem o enxerga como “cria”, Rejane conta que dependendo da função que esse vínculo ocupa, pode haver impacto positivo ou negativo na saúde mental.
Quando há uma relação de parceria, afeto recíproco, presença e companhia integradas à rotina, o animal é percebido como alguém que caminha junto e o impacto tende a ser regulador emocional, fonte de prazer e fator protetivo contra isolamento, com menor risco de fusão emocional excessiva.
Já quando o pet é enxergado como filho, isso pode trazer sentido à vida, estruturar rotina e fortalecer autoestima, porém pode também gerar vulnerabilidade quando há hiper-responsabilização, ansiedade excessiva com a saúde do animal, dificuldade de separação ou restrição significativa do dia a dia social.
“Quando o animal de estimação vira uma cria, o responsável tende a vivenciar luto mais intenso, o que não significa fragilidade. Entretanto, o problema surge quando não há rede de apoio e o animal era a única fonte de conexão, ou quando a vida perde completamente o sentido após a perda”, conta a profissional.
Ainda de acordo com ela, o ponto não é a intensidade do amor, mas a função psicológica que ocupa. O vínculo deixa de ser saudável quando começa a gerar restrição, sofrimento ou dependência emocional exclusiva, e quando há fusão emocional, dificuldade de diferenciar o eu e o pet.
“Essa dependência pode causar ansiedade constante e preocupação desproporcional com saúde, morte ou separação temporária, indicando a necessidade excessiva de controle e dificuldade de tolerar incerteza. Pode fazer o responsável viver em estado de alerta contínuo, evitar viagens mesmo com possibilidade segura de cuidados, reduzir drasticamente o dia a dia social, abandonar projetos ou evitar relacionamentos para não dividir atenção”, afirma a psicóloga.
Portanto, para avaliar se o vínculo está saudável, é importante observar a funcionalidade. O animal amplia a vida ou a restringe? Existem outras fontes de vínculo? Há flexibilidade? A identidade vai além do papel de responsável? Há autonomia?

FAQ sobre o papel do animal de estimação nas famílias modernas
Quando o vínculo com o pet pode deixar de ser saudável?
A relação deixa de ser saudável quando começa a gerar restrição, sofrimento ou dependência emocional exclusiva.
As pessoas estão, realmente, trocando filhos por pets?
Nem sempre se trata de substituição. Para alguns é uma escolha consciente de modelo de vida; para outros, pode ser uma etapa temporária ou uma expressão legítima de vínculo profundo.
Quais benefícios emocionais podem estar associados à convivência com pets?
Estudos associam essa vivência à redução de estresse, diminuição de sintomas ansiosos e sensação de propósito. A previsibilidade do afeto dos pets também pode fortalecer a impressão de segurança emocional.
